AMAP ASSOCIAÇÃO MINEIRA DE PSICANÁLISE

AMAP ASSOCIAÇÃO MINEIRA DE PSICANÁLISE
RUA TUPIS, 457/503 CENTRO - BELO HORIZONTE - MG - 31- 3226-7059 ou 31-9206-3898 - 31-8819-0020 - VEJA SITE: www.amapmg.com.br - skype gisele.parreira - email: giseleparreira@amapmg.com.br ou parreiragisele@yahoo.com.br

A AMAP DÁ AS BOAS VINDAS A VOCÊ

A Associação Mineira de Psicanálise oferece a você visitante, parceiro ou membro esse espaço online onde você encontrará nossa programação e eventos, artigos, links úteis, lista dos associados, histórico da psicanálise, nossos calendários de cursos e atividades e muito mais!
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A PSICANALISE NO BRASIL É PROFISSÃO AINDA NÃO REGULAMENTADA, EXERCIDA LIVREMENTE

COMUNICADO

A PSICANALISE CONTINUA COMO SEMPRE (SEM REGULAMENTAÇÃO)
PARECER JURIDICO DA AMAP com informações sobre o acórdão super comentado. (http://portal.trf1.jus.br/portaltrf1/comunicacao-social/imprensa/noticias/psicanalise-nao-pode-ser-e
portal.trf1.jus.br )

PREZADOS PSICANALISTAS DA DIRETORIA, SOCIOS, E EM FORMAÇÃO, COLEGAS E TODA SOCIEDADE

A AMAP em vista da publicação de um acórdão onde anuncia que “A PSICANALISE ESTA PROIBIDA NO BRASIL” levatanndo muitas dúvidas e questionamentos, frase de efeito, mas em nada altera a situação da psicanalise como profissão ainda não regulamenta, portanto o referido acórdão possui valor jurídico apenas e somente contra a sociedade ali em questão, e nenhum vínculo temos com aquela sociedade.

A AMAP divulga para os colegas nosso PARECER JURIDICO E DA DIRETORIA em anexo.
Somos Atenciosamente, Gisele Parreira diretora Jurídica e Presidente da AMAP e toda diretoria.

Recentemente saiu publicado na internet decisão da Justiça Federal.

“...as supostas atividades de um psicanalista se enquadram nas competências dos psicólogos, razão pela qual não existe um tratamento normativo que a rege como profissão autônoma.”

Link: http://portal.trf1.jus.br/portaltrf1/comunicacao-social/imprensa/noticias/psicanalise-nao-pode-ser-exercida-como-profissao-no-brasil.htm

POSICIONAMENTO DA AMAP-MG se encontra no site: www.amapmg.com.br no link “perguntas frequentes” – onde discorremos sobre a situação da psicanálise como profissão não regulamentada no País assim como acontece no mundo todo. A Psicanálise como profissão não regulamentada, é alvo de grande polêmica entre diversos outros setores profissionais da área de saúde.

 CONCLUSÃO DA AMAP:
1. A Psicanálise é ciência autônoma - a do inconsciente psíquico, abrangendo uma terapia e uma prática psicoterapia - e como tal deve ser encarada.

 2. NO BRASIL não existe o diploma de psicanalista por vias acadêmicas formais. A formação científico-profissional é realizada em centros particulares, sob a forma de cursos livres sem nenhum reconhecimento oficial.

 3. Em conseqüência, a Psicanálise possui existência oficiosa, visto que não foi, ainda, objeto de regulamentação.

 4. O diploma de médico ou de psicólogo não constitui e NEM HABILITA, por si só, condição de capacidade para o exercício legal da clínica psicanalítica.

 5. Por força do art. 153 da Constituição Federal, tanto podem exercer a Psicanálise os médicos, psicólogos, assim como profissionais das ciências humanas, v.g., pedagogos e assistentes sociais que tenham conseguido formação psicanalítica.

 Esse campo tão delicado de vaidades e interesses políticos, recorrermos ao pensamento Freudiano acerca da formação do Psicanalista.

 No seu artigo “A questão da Análise Leiga” (1925), Freud defendeu a prática da psicanálise, por leigos, ou seja, não médicos ou de formação em saúde. Defendeu também, ao longo de sua vida, a formação do psicanalista enquanto um processo extra acadêmico, levando em conta o requisito essencial do processo de análise pessoal, onde então, o aspirante a psicanalista aprenderia a trabalhar através da vivência de vínculo transferencial e contra transferencial, onde também se prepararia para lidar com seu paciente, isolando elementos psíquicos de si próprio. A esse processo, chamamos de “Formação didata por sucessão Freudiana”.

Desde então, as grandes sociedades psicanalíticas e escolas derivadas do ensinamento Freudiano, a exemplo das sociedades da época, convergiram seus esforços com objetivo de manter o modelo de formação original.

 6. Se a formação do psicanalista é incompatível com os modelos educacionais acadêmicos mundiais, não poderá ser categorizada como uma formação universitária, considerando que nenhuma instituição brasileira tem condições de promover um ensinamento de foco tão específico e ainda um corpo de psicanalistas didatas capacitados para atender ao número atual de alunos por sala de aula. A grande universidade mantém uma média de cem alunos por turma, no inicio de seus cursos.

 7. Logo, NÃO EXISTE NO BRASIL a titulação de Bacharel em Psicanálise. Se tal titulação não é possível, e se o modelo de aprendizado é incompatível com o modelo acadêmico brasileiro, deduzimos a impossibilidade da criação de um Conselho regulamentador, cabendo às SOCIEDADES DE PSICANÁLISE a normatização estatutária e fiscalização de seus filiados, entretanto não podendo abranger de forma irrestrita a totalidade de praticantes e pseudopraticantes de psicanálise. Todos os psicanalistas que hoje atuam terão O DIREITO GARANTIDO de participar de um eventual processo de regulamentação da profissão que, hipoteticamente, vier a ser sancionado legalmente.

 O Referindo ao R. Acórdão da 7ª. T TRF - É contra uma determinada sociedade onde diz: “Inexiste lei que regulamente especificamente a atividade de psicanalista, o que não enseja a abertura para qualquer pessoa atuar no ramo, uma vez que é especialidade da área de Psicologia, conforme o art. 13, § 1º da Lei 4.119/62 que diz (transcrição logo abaixo) é algo que traz um entendimento conflituoso no já cenário polêmico quanto a falta de regulamentação da profissão de psicanalise, vejamos:
1º. Se o próprio acórdão reconhece a NAO existência de legislação regulamentadora da profissão de Psicanalise o que poderia ter a profissão de psicanalista com a legislação que regulamenta a profissão do psicólogo ? Não conseguimos vislumbrar o que tem haver com nos termos da Lei 4.119 nenhum relacionamento com a psicanálise. Trata-se de lamentável equivoco. Vejam o que dispõe o parágrafo primeiro:
2º. O Psicólogo sai da faculdade habilitado na sua profissão e jamais como psicanalista.
Transcrição: Legislação e regulamentação profissional - Lei nº 4.119, de 27/08/1962.
Dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo
Art. 13º Ao portador do diploma de Psicólogo é conferido o direito de ensinar Psicologia nos vários cursos de que trata esta lei, observadas as exigências legais específicas, e a exercer a profissão de Psicólogo.
1. § 1º - Constitui função privativa do Psicólogo a utilização de métodos e técnicas psicológicas com os seguintes objetivos:*
1. diagnóstico psicológico;
2. orientação e seleção profissional;
3. orientação psicopedagógica;
4. solução de problemas de ajustamento.
2. § 2º - É da competência do Psicólogo a colaboração em assuntos psicológicos ligados a outras ciências.
Art. 14º (Vetado) Lei nº 4.119, de 27/08/62
Parte vetada pelo Presidente da República e mantida pelo Congresso Nacional, do projeto que se transformou na lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962 - que dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo.
"Faço saber que o Congresso Nacional manteve e eu promulgo, nos termos do art. 70º, Parágrafo 3º, da Constituição Federal e do art. 3º, item III, do Ato Adicional, o seguinte dispositivo da lei n º 4.119, de 27 de agosto de 1962. Art. 13 - (...) parágrafo 1º - (...) privativa (...)"
8. Obviamente, num país onde o jogo de interesses políticos se sobrepõe ao bom senso, a briga por detenção de poder e controle é antiga e extensa. Alguns Conselhos da área de saúde defendem o exercício da análise leiga, outros julgam improcedente tal exercício e ainda há os que ora se posicionam contra, ora a favor. Mas, a verdade é que nenhuma lei no país pode coibir a prática da psicanálise e como qualquer prática, o profissional está sujeito à lei quando causa danos ou ultrapassa os domínios de sua autonomia profissional, invadindo territórios profissionais outros.

09. Posicionamento comum a todas as sociedades de psicanalise em todo o pais. A exemplo podemos ver o vídeo:
Regulamentação da profissão de psicanalista No Brasil, nas últimas décadas, houve várias tentativas de regulamentação da profissão de Psicanalista, mas todas foram interrompidas em algum ponto, em geral por falta de consenso entre Parlamentares e especialistas e entre os próprios Psicanalistas
Dr. Tito Nicias, Analista Didata da Sociedade de Psicanálise de Brasília, fala sobre as dificuldades encontradas no percurso para a regulamentação profissional nos dias de hoje e comenta a matéria que publicou no Jornal da Sociedade de Psicanálise de Brasília, em que relata a história da profissão de Freud à atualidade.

 http://painelbrasil.tv/site/index.php?option=com_content&view=article&id=305:regulamentacao-da-profissao-de-psicanalista&catid=7&Itemid=281


Esse site também responde as mesmas questões: http://freudexplicablog.blogspot.com.br/2008/08/freud-explica-responde-profisso.html

Sindicato de Psicanalistas do Espirito Santo - http://www.sindpes.com.br/a-pratica-da-psicanalise-no-brasil/ com seu posicionamento.

10. Diversas sociedades Psicanalíticas em todo o Pais devem estar perplexos com as conclusões exibidas no acórdão abaixo contra a sociedade ali mencionada, proibindo seus cursos e atuação, bem como entendendo que a psicanálise é uma extensão da psicologia, muito embora, reconheçam a inexistência de regulamentação a acerca da psicanálise. Por enquanto o que temos é que tal decisão se refere aquela sociedade e a nenhuma outra. Portanto, tudo continua como sempre foi e tem sido.
Se isso, vier a tornar-se, num futuro, uma LEI REGULAMENTADORA para todas as demais sociedades psicanalíticas, ou uma LEI PROIBIDORA, para a psicanalise como profissão. TODOS AS SOCIEDADES DE PSICANALISE DO PAIS e SEUS PSICANALISTAS continuam a atuarem como sempre o fizeram, sem que a profissão tenha qualquer regulamentação, assim, inexiste qualquer proibição quanto ao exercício profissional da psicanálise.

Parecer jurídico endossado pela diretoria da AMAP - AMAP ASSOCIAÇÃO MINEIRA
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANALISE CLÍNICA INGRESSO CIRCULAR

INGRESSO CIRCULAR NO CURSO, HA QUALQUER TEMPO VOCE PODE INGRESSAR
SEDE: RUA TUPIS, 457 SALA 503 - CENTRO - BELO HORIZONTE - MG
AS AULAS PODERÃO SER NO HOTEL SERRANA PALACE HOTEL - CENTRO - RUA GOITACAZES, 450 - TEL 31-3271-0200 - TELF DRA. LUCIA HELENA (031) 88190020 - Lúcia Helena luciahelena_edu@hotmail.com - DRA. GISELE PARREIRA - (31) 92063898 - email: parreiragisele@yahoo.com.br
6A. FEIRA DAS 18:00/22:00
SÁBADO DAS  08:00/18:00

MATRICULA E MENSALIDADE MESMO VALOR 

INVESTIMENTO ATUAL:   R$ 300,00
REAJUSTE A PARTIR DE JULHO DE 2013: R$ 340,00
REAJUSTE PREVISTO P JULHO 2015 EM 10% SUJEITO A CONFIRMAÇÃO/ALTERAÇÃO

INFORMAÇÕES - VEJA NO LINK  CURSO DE FORMAÇAO
FICHA DE INSCRIÇÃO BAIXAR: www.amapmg.com.br

Psicanalista Jeiel Eduardo Santos
Tel.: (31) 3681-5659 - 8883-1484 - 8819-0020
E-mail: eduardolena@uol.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. e luciahelena@amapmg.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Psicanalista Didata Gisele Parreira
Tel.: (31) 3424-2805 - 9206-3898
E-mail: parreiragisele@yahoo.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. e giseleparreira@amapmg.com.br
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CALENDÁRIO ATUAL - VEJA CALENDARIO COMPLETO E ANOS POSTERIORES NO LINK CALENDARIO ANUAL
ANO DE 2014
3ªaula - 10 e 11/01 – Teoria Psicanalítica I – Freud parte I.


aula –07 e 08/02 – Teoria Psicanalítica I -Freud parte 2


aula –07e 08/03 – Método de investigação em Psicanálise


aula -04 e 05/04 - Teoria psicanalítica II M. Klein


aula -09 e 10/05 - Semiologia


aula –06 e 07/06 – Interpretação de Sonhos


aula –04 e 05/07 – Teoria Psicanalítica III Winnicot


10ªaula -15 e 16/08 - Noções de Anatomia e Bioquímica


11ªaula –12 e 13/09 – Psicopatologia – Paula Regina


12ª aula - 10 e 11/10– Teoria Psicanalítica IV Bion


13ªaula –07 e 08/11 – Teoria Psicanalítica Contemporânea


14ªaula –05 e 06/12 – Psicodinâmica das Neuroses





sexta-feira, 5 de agosto de 2011

PSICANÁLISE ESTUDO SOBRE INVEJA

PSICANÁLISE ESTUDO SOBRE INVEJA




INTRODUÇÃO

Muito antes do surgimento da psicanálise, a inveja era tida como um dos maiores problemas da humanidade. É, afinal, um dos sete pecados capitais e, segundo Geoffrey Chaucer – escritor inglês do século XIV-, “o pior pecado que existe. Isso porque, na verdade, todos os outros pecados são cometidos contra uma virtude específica, mas a inveja se volta contra todas as virtudes e toda bondade [...] e é como o demônio, que sempre se regozijou com o mal do homem”.

Chaucer dizia que a inveja se entristece com a bondade e a prosperidade dos outros, mas se deleita com a desgraça alheia. A característica singular da inveja é esta: não ter nenhum fim positivo. Os outros pecados têm o objetivo, embora equivocado ou interesseiro, de conquistar um objeto de desejo. Gula, avareza, luxúria, orgulho, todos são motivados a seu modo por algo desejável, ainda que em detrimento de outra pessoa. Só a inveja não traz vantagem alguma, pois ela destrói o objeto de admiração e, assim, o torna indesejável. A única vantagem óbvia seria o prazer sádico – “a alegria com o mal de outro homem”.

Chaucer citou algumas das maneiras como a inveja se apresenta que são conhecidas de muita gente. Falou de “calúnia ou detração” e de alguém que elogia o vizinho com “má-intenção, pois ele sempre coloca um ‘mas’, que é uma censura muito maior do que todo o elogio”. Certo sujeito trabalha duro e com abnegação para uma entidade beneficente, mas não passa de um benfeitor. Outro é um excelente pianista, mas toca um pouco rápido demais. Alguns amigos foram muito solícitos, mas são presunçosos demais.



1-DEFINIÇÕES DE INVEJA


Antes de avançar mais, eu gostaria de deixar claro que existem dois usos bem diferentes da palavra “inveja”. Chaucer a empregava em referência à carga destrutiva, arrasadora, que se volta contra a própria pessoa ou as qualidades admiradas nela. Esse é o tipo de inveja que a psicanálise também descreve.

No entanto, o termo é usado frequentemente na linguagem popular para indicar uma espécie de inveja que não tem um caráter pernicioso; ao contrário, consiste na aflição dolorosa decorrente de uma admiração que faz o indivíduo se conscientizar das suas deficiências.

Esse segundo tipo de inveja pode motivar a imitação ou levar à aceitação das próprias limitações, e não a uma tendência destrutiva.

Invejo em você as virtudes, as habilidades e a beleza, o que não significa necessariamente que eu queira destruí-las. Na verdade, a minha admiração por esses atributos pode me inspirar a usar melhor os meus.

Mesmo que o indivíduo não tenha como conseguir aquilo que inveja, ele pode se enriquecer com isso e obter algo de bom. Uma pessoa idosa que inveje os jovens talvez se sinta estimulada com a vivacidade e o otimismo deles, ainda que exista aí a dor de reconhecer o fato de que ela nunca mais será jovem. Alguém que inveje um artista ou um escritor não pode esperar conquistar o talento e a aptidão deles, mas pode se inspirar na criatividade deles e na sua concepção do mundo.

Essa inveja é intrínseca à avaliação dos outros e daquilo que eles têm para oferecer. É às vezes chamada de “inveja de imitação”. Eu nunca serei uma instrumentista brilhante, mas ainda assim posso me inspirar nas qualidades da música e da emoção que ela transmite.

É muito mais difícil conviver com a inveja destrutiva, mas ela também constitui a natureza humana. Talvez seja por essa razão que compreendemos algumas das personagens literárias invejosas, embora as deploremos, embora, de certa forma, elas nos instiguem. Além de provocarem um sentimento de indignação justa, como o Iago de Shakespeare e o Satanás de Paraíso perdido, de John Milton, essas personagens também induzem solidariedade: sabemos o que significa ser elas. É muito comum os vilões da literatura motivarem um interesse e uma compreensão maior do que os alvos admiráveis da inveja e da destrutividade deles, pois em cada um de nós há um vilão.

Podemos ter conhecimento das nossas qualidades aceitáveis, mas a literatura nos ajuda a aceitar traços da nossa personalidade que não aturaríamos tão bem não fosse ela.

A inveja destrutiva talvez seja o sentimento mais difícil de identificar em nós mesmos, já que aparentemente é a única emoção que ataca a bondade só porque é boa. Além disso, o efeito da inveja é solapar a bondade e as capacidade do indivíduo assim como as da pessoa invejada.


II- EFEITOS DA INVEJA NO EU

Milton e também Chaucer atribuíram a inveja ao demônio, uma vez que Satanás a personifica pelo seu ódio tanto à criatividade e ao poder de Deus Omo à sexualidade e ao amor imaculado de Adão e Eva. Expulso do Paraíso por ter tentado destronar Deus, Satanás vem a terra e espiona Adão e Eva. A inveja o domina:

Que espetáculo mais odioso, mais atormentador !

Então esses dois emparaisados, um nos braços do outro, o Éden mais feliz, vão desfrutar o seu quinhão de mais e mais felicidade, enquanto eu ao Inferno sou lançado.

Como se sabe, Satanás se põe invejosamente a arquitetar ao fim da felicidade e a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden. O diabo pune a eles e a Deus por sua desgraça. E Milton descreve a angústia intolerável que se seguiu ao ataque de inveja de Satanás contra Deus e ao seu exílio do paraíso:

Eu, um desgraçado! Para onde fugirei da infinita cólera e do infinito desespero? Todos os caminhos me levam ao Inferno; o Inferno sou eu. E no mais profundo dos abismos um chão ainda mais fundo que ameaça devorar-me escancara-se, comparado com o qual o Inferno que padeço parece o Céu.

Uma menina de seis anos que queria desenhar muito bem não suportava que uma colega de classe fosse obviamente muito mais talentosa e fizesse desenhos muitos melhores que os dela. Certo dia, quando se viu sozinha na sala de aula, ela rasgou o desenho que a mais bem dotada deixara secando. Pouco depois, ficou extremamente apavorada com o que tinha feito, com uma vergonha imensa e se sentindo ainda mais imprestável do que antes. Sua relativa falta de talento aumentou bastante com o sentimento de culpa e a falta de esperança de consertar a situação.

Quando atacamos um objeto externo admirado, atacamos também a representação dele em nossa mente. Isso nos deixa sem um apoio interno, e a culpa do ataque afeta o nosso senso de valor pessoal. O ataque interno às pessoas e às qualidades que prezamos – os nossos “objetos bons”, como dizem os psicanalistas – pode provocar um sentimento de destruição e desolação interna.

O que, então, teria levado a menina de seis anos a rasgar a pintura ou Satanás a declarar guerra a Deus ? Talvez não só porque os objetos de inveja sejam considerados bons ou melhores, mas porque a qualidade deles faz a garota, Satanás ou qualquer um se sentir incapaz. Às vezes o indivíduo não suporta não ser o melhor. Então, o ataque ao que é bom talvez não se deva apenas ao desejo gratuito de prejudicar e tenha outra motivação: destruir algo ou alguém cuja qualidade o indivíduo entende de um modo que o faz se sentir mal. Na inveja sempre existe uma comparação – inveja-se aquilo que não se tem.


III- INVEJA E CIÚME

É importante diferenciar a inveja do seu par, o ciúme, embora os dois estejam quase sempre intimamente ligados e se confundam. Existe ciúme quando queremos ter alguém ou uma coisa. O motivo é a posse, e a destrutividade é um meio para esse fim. A forma destrutiva da inveja não poupa nada: o objeto admirado deve ser eliminado para que ninguém possa usufruí-lo.

A dificuldade de distinguir o ciúme da inveja fica clara nesta história comovente. Um menino de dois anos ficou empolgado com o nascimento do irmão. Enquanto o recém-nascido e a mãe continuavam na maternidade, ele fez muitas perguntas ao pai sobre os fatos da vida: como o bebê apareceu, como foi feito e como saiu da barriga da mãe. O pai se esforçou ao máximo para explicar delicadamente essas coisas ao filho, que pareceu satisfeito. Um pouco mais tarde, porém, o menino teve um chilique porque queria ir à maternidade. O pai, achando que o filho estivesse com ciúme do recém-nascido, perguntou-lhe se queria ficar com a mãe. O garoto exclamou veemente: “Não ! Eu quero ser a mamãe!” O fato de ele ter visto a mãe grávida e ter ouvido falar do nascimento provocou a inveja, Que se manifestou no faniquito, mas foi controlada de certa maneira na conversa cm o pai. A inveja desse menino, todavia, era controlável e suportável e, portanto, diferente da inveja mais perniciosa, muito mais difícil de mudar.

Exemplos como o da menina que rasgou a pintura e do menino à espera do nascimento do irmão acontecem todo dia. O menino conseguiu revelar o que sentia ao pai, que reconheceu a inveja e a frustração do filho de não ser a mãe, o que o ajudou a suportar esses sentimentos. Com o apoio do pai, o menino começou a criar uma figura interna que lhe permitiu compreender e tolerar a inveja. Por outro lado, só muitos anos depois a menina conseguiu contar o que fizera e continuava a se sentir mal com o acontecimento e incompreendida.

O mundo interior das pessoas é criado em parte pelos sentimentos e em parte pela convivência com os outros. O ataque de inveja pode nos deixar sem apoio interno porque achamos que as outras pessoas estão impregnadas dos nossos sentimentos negativos. A menina concluiu que não podia recorrer a ninguém porque na mente dela as figuras que a ajudariam tinham se tornado hostis e agressivos como ela. A garota tinha medo de que essas pessoas “arrancassem um pedaço dela”, do mesmo modo que ela havia rasgado a pintura. Em certos casos, os pais podem ser realmente severos e aplicar castigos, dando à criança bons motivos para contar o que fez. A dificuldade também pode estar na criança. Todavia, quase sempre essas situações se misturam.

As duas crianças mencionadas nos exemplos demonstram dois tipos de consciência. O menino conseguiu fazer o pai ajudá-lo a adquirir uma consciência benevolente ou compreensiva, que reconhece os sentimentos, mas não se vinga e, assim, contribui para conter a agressividade ou a dor. Fosse por que fosse, a menina, com uma culpa solitária, estava à mercê de uma consciência punitiva e impiedosa, a qual, ainda que a ajudasse a se comedir no futuro, não permitiu que ela se perdoasse por ter sentido inveja. Todos temos esses dois tipos de consciência – a compreensiva e a impiedosa – e os usamos em momentos diferentes. Eles são constituídos por uma mistura dos nossos sentimentos e da bondade ou da severidade real das pessoas ao redor. A inveja destrutiva é frequentemente acompanhada de uma consciência persecutória, que por sua vez implica solidão e sensação de abandono.

A terapia psicanalítica é uma maneira de as pessoas descobrirem a própria inveja e aprenderem a lidar com ela, em vez de deixá-la estragar tudo. O que dizem os psicanalistas a respeito da inveja? A partir de Sigmund Freud, muitas figuras importantes do mundo da psicanálise descobriram que a inveja pode ser o maior empecilho para o sucesso da análise e a aceitação da inveja pode ter importância fundamental para o bem-estar e a saúde mental do paciente.


IV- FREUD

Em “Análise Terminável e Interminável”, ensaio que escreveu dois anos antes de morrer, Freud mostra que o paciente pode se recusar a aceitar a ajuda do analista. Ele supôs que a recusa resultasse do medo da passividade, no homem, e da inveja do pênis, na mulher.

A supercompensação rebelde do homem produz uma das mais fortes resistências de transferência. Ele se recusa a se submeter a um pai substituto ou a se sentir em dívida com ele por qualquer coisa, e, consequentemente, recusa-se a aceitar que o seu restabelecimento parta do médico. Nenhuma transferência análoga Pode surgir do desejo da mulher por um pênis, mas esse desejo é fonte de crises de depressão grave nela, devido à convicção de que a análise não será proveitosa e de que nada pode ser feito para ajudá-la. (grifos meus)

Ainda que o ponto de vista de Freud se centrasse no pênis como símbolo de enorme potência e mérito físico, ele apontou um problema clínico significativo associado à inveja: por definição, o invejoso não pode aceitar ajuda por não suportar que lhe dêem nada. A dificuldade em ambos os sexos é aceitar algo que venha de outras pessoas.

Seria impossível falar do desenvolvimento das ideias da psicanálise sobre a inveja sem mencionar de passagem uma das mais polêmicas e contestadas contribuições de Freud para a teoria psicanalítica, a “inveja do pênis”. Ele afirmou que as crianças sabem de apenas um órgão genital, o pênis. No seu entender, a menina pequena percebe que não tem pênis ou até se acha um menino castrado, em vez de possuir algo que é só dela.

Freud supôs que a inveja do pênis pudesse provocar dificuldades futuras para aceitá-lo nas relações sexuais.

Embora muitos analistas concordem que existe inveja do pênis em ambos os sexos – afinal, o garotinho pode invejar o pênis desenvolvido do pai -, a ideia de primazia do pênis foi contestada ferrenhamente. Como explicarei, a ideia da inveja na infância passou a abranger a inveja da mãe já na primeira mamada. O conceito também foi ampliado para dar conta da ênfase nas funções únicas do órgão invejado ou da mãe ou do pai invejado. Então, o pênis é invejado pela potência; o seio, pela capacidade de alimentar; o corpo da mãe, por ser capaz de gerar bebês; e ambos os pais por serem, cada qual a seu modo, fontes da vida.

As feministas declaram que a inveja recai sobre as prerrogativas dos homens na sociedade e não no pênis em si. Do mesmo modo, as prerrogativas biológicas e sociais das mulheres, que geram filhos, lhes dão de comer e cuidam deles, aumenta a inveja que os homens têm delas. Isso porque é a diferença que motiva a inveja, sobretudo se essa diferença for fundamental.

V –ABRAHAM

O psicanalista Karl Abraham (1877-1925) propôs a tese de que a inveja causava dificuldades numa fase inicial da vida e destacou a possibilidade de o bebê ter inveja do seio.

Assim como Freud, Abraham deu grande ênfase à relação com o pai. Mas também apresentou ideias que mudariam a feição da psicanálise e seriam aprimoradas por outros analistas, especialmente por sua paciente Melanie Klein (1822-1960), pioneira da psicanálise de crianças e adultos.

Abraham afirmou que o bebê talvez achasse difícil aceitar a produtividade do seio e também a potência do pai. Ele ressaltou que “devemos ter claro que o prazer do período de amamentação é em grande medida um prazer de pegar, de receber algo” (grifo meu). Ele descreveu como na relação alimentar a inveja pode interferir no prazer do bebê de ser alimentado e levar a um padrão de relacionamentos insatisfatórios em que o indivíduo não consiga aceitar o que venha dos outros.

A proposição de que a inveja já existe nessa fase inicial foi um dado novo na psicanálise.

Abraham achava que o otimismo e a capacidade de desfrutar a vida derivassem de uma relação alimentar satisfatória. No entanto, quando essa relação dá errado e o indivíduo não consegue estimar o que lhe é dado, a situação pode se complicar bastante. Abraham descreveu um tipo de paciente que não tolerava aceitar o que o analista lhe propunha.

Em vez de estabelecer uma transferência, esses pacientes tendem a se identificar com o médico. Em lugar de terem uma relação mais próxima com o médico, eles se colocam na posição deste. Adotam os interesses do médico e gostam de se ocupar da psicanálise como ciência, em vez de deixá-la agir neles como método de tratamento. Eles tendem a trocar de papel, como faz a criança ao brincar de ser o pai. Eles ensinam o médico ao lhe oferecer a sua opinião sobre a própria neurose, que eles consideram especialmente interessante, e imaginam que a ciência se enriquecerá com a análise deles [...]. Acima de tudo, eles desejam superar o médico e depreciar a aptidão e as conquistas psicanalíticas dele. Eles afirmam ser capazes de “fazê-lo melhor” [...]. Indubitavelmente, existe nisso tudo um quê de inveja.

A observação de que o paciente “troca de papel” com o analista é uma constatação surpreendentemente simples do mecanismo que mais tarde se tornou conhecido como “identificação projetiva”. Com esse artifício, o indivíduo se apodera das qualidades invejadas na outra pessoa e projeta nela os seus sentimentos indesejáveis. A criança se coloca acima do pai pondo-se de pé num móvel mais alto, por exemplo, e lhe dizendo que ele é pequeno e não sabe de nada. Abraham, como o humor que torna as suas obras tão interessantes, descreveu um neurótico obsessivo que durante alguns meses se apegou à ideia de que sabia mais de psicanálise do que o próprio Abraham. Enfim, ele teve o bom senso de comentar: “Agora começo a perceber que você sabe um pouco sobre neurose obsessiva!

VI- KLEIN

Perto do fim da vida, Melanie Klein, como Freud, se convenceu da ubiqüidade da inveja e escreveu sobre ela no seu ensaio essencial “Inveja e Gratidão”. Ela considerava a inveja uma manifestação da pulsão de morte, conceito que era objeto de polêmica acirrada entre os psicanalistas. Quer se acredite na existência da uma pulsão de morte em si, quer se pense que existam forças destrutivas na natureza humana, a inveja é indubitavelmente uma expressão delas. Isso se deve à investida da inveja contra a bondade e, assim, contra a própria vida. Klein foi ao cerne da questão: “A capacidade de dar e de preservar a vida é tida como a maior das dádivas, e, portanto a criatividade se torna a causa mais forte da inveja”. Ela suponha que a inveja se dirigisse para a mãe como fonte de vida e sustento, para as qualidades mentais e também para a capacidade física.

Klein afirmou que a paz de espírito de outra pessoa pode ser motivo de inveja. Ela mostra como “a felicidade, a dor e os conflitos [ que o paciente ] atravessa se contrapõem ao que ele acha ser a paz de espírito do analista – na verdade, a sanidade dele -, o que é um motivo especial de inveja”.

Uma paciente chegou a uma sessão da sua análise se queixando de que “tranquilidade mental” era o que ela mais desejava e não tinha. Então, passou a criticar num tom de censura e inveja algumas pessoas que a ajudavam. Ficou claro que ela não queria que essas pessoas nem a analista tivessem tranquilidade mental, mas se preocupassem com tudo que estivessem fazendo de errado. Quando, por meio da análise, a paciente percebeu que o que lhe provocava insatisfação era a sua dificuldade de aceitar ajuda e viver sem preocupação, ela ficou cada vez mais feliz e conseguiu esquecer algumas das suas queixas.

Melanie Klein, como Abraham, achava que a inveja estivesse presente já na primeira relação de dependência para com a mãe e o peito ou a mamadeira. Ela formulou a hipótese de que [...] o objeto bom primordial, o seio da mãe, constitui o núcleo do ego e contribui intensamente para o seu crescimento [...] todos os desejos instintivos [do bebê] e suas fantasias inconscientes atribuem ao seio qualidades que vão muito além do alimento que ele proporciona [...] [e] enriquecem de tal forma o objeto primordial que ele continua a ser o alicerce da esperança, da confiança e da crença na bondade.

Para evoluir a partir dessa base é necessário um trabalho emocional. Klein pressupôs que o bebê dividisse a princípio os sentimentos em bons e maus, idealizados e persecutórios. Os bebês oscilariam entre os estados de contentamento pleno e aflição e raiva intensas, e nós consideraríamos isso normal.

Aos poucos, pelo fato de a mãe assimilar os sentimentos intensos do bebê e ajudá-lo a suportá-los, os sentimentos positivos e negativos dele não precisam se manter tão separados. O bebê percebe que a mãe que ele odeia é também aquela que ele ama, e adquire a capacidade de tolerar sentimentos ambivalentes. Se a inveja interferir muito nessas fases iniciais, o objeto idealizado e depois bom não conseguirá se firmar na psique do bebê, que ficará confuso entre o bem e o mal. Klein supôs que isso constituísse a base dos estados de confusão. (essa ideia foi desenvolvida mais adiante por Herbert Rosenfeld).O bebê – ou, depois, a criança e o adulto – pode também ter dificuldades alimentares se imaginar que atacaram o seio invejado e o envenenaram. No futuro, essas fantasias iniciais podem prejudicar a confiança nas pessoas. Da mesma maneira, numa análise, [...] a inveja e as atitudes a que ela dá vazão interferem no crescimento do objeto bom na situação de transferência. Se, numa fase inicial, o alimento bom e o objeto primário bom não foram aceitos nem assimilados, isso se repete na transferência, prejudicando o andamento da análise.

Em outras palavras, o paciente sente dificuldade de digerir e assimilar a descoberta que a análise lhe proporciona.

O exemplo de uma análise pode esclarecer a ligação entre as perturbações concretas com o seio e as perturbações simbólicas com a criatividade e a realização. Uma jovem com um distúrbio alimentar grave e fobia social achava, apesar disso, que o seu maior problema fosse a dificuldade de se interessar pela vida. Ela tinha consciência suficiente para perceber que não era a falta de dinheiro ou de posses nem a sua saúde física que mais a incomodavam, mas a sua dificuldade de manter um interesse vivo nas pessoas e no que o mundo lhe oferecia.

Soube-se depois que o problema da jovem estava ligado às dificuldades alimentares e à fobia, uma vez que a suspeita da comida e das pessoas tinha a mesma origem. Sua primeira relação com uma fonte de alimento e de interesse e criatividade havia sido destruída pela inveja, de modo que ela não podia se apoiar num objeto bom interno para confiar nas fontes de alimento ou nas fontes de contato e interesse humano.

No entanto, o fato de a paciente ter-se agarrado ao desejo de se interessar pela vida a ajudou muito. Deu-lhe motivação para mudar e contribuiu para que ela saísse do isolamento e convivesse com os outros. Para tanto, foi necessário enfrentar na análise um lado seu invejoso que prejudicava a sua capacidade de se interessar e ter prazer e atacava a competência da analista para ajudá-la. Quando conseguiu manter o interesse e o envolvimento, ela ficou feliz com a análise e com a própria vida.

Poderíamos perguntar: “Por que alguém se voltaria contra o seu potencial?” Lembre-se de que é impossível atacar a pessoa que tem o que se quer sem atacar também a capacidade de se relacionar com essa pessoa e de aceitar o que venha dela – que são faculdades importantes. O bebê que precisa esperar pela mamada e depois se afasta do seio ou a criança que está zangada com a mãe porque esta dá atenção aos outros ou a si mesma acaba sentindo que o que a mãe dá não é bom. Isso também prejudica o seu afeto e a sua capacidade de desfrutar o que a mãe pode dar e de sentir grato por isso.

Klein escreveu apaixonadamente sobre as vicissitudes da inveja e a importância da gratidão, do amor e do prazer quando esses efeitos nocivos são enfrentados. Ela afirmou que, se o bebê tivesse experiências plenamente satisfatórias nos primeiros meses de vida, se formaria uma base de gratidão capaz de diminuir a inveja e destrutividade. Então se estabeleceria uma figura interna boa, “que ama e protege o eu e é amada e protegida pelo eu”.


VII- INVEJA NA INFÂNCIA

As emoções associadas ao seio e à mãe também são sentidas pelo pai, pelos pais como casal e por outros bebês, reais ou imaginários. Todo novo relacionamento traz sentimentos antigos que serão reelaborados de um modo diferente e com uma pessoa diferente, para que, se certas propensões se firmarem na primeira relação, existam oportunidades de aprimoramento. A relação diferente com o pai pode às vezes tornar a inveja menos intensa do que com a mãe, ou o pai pode ajudar a lidar com a inveja. Foi o que aconteceu com o menino citado, que queria ser a sua mãe quando ela tece outro bebê.

No entanto, não só a mãe e o pai são invejados, mas também o elo entre eles. Quando o bebê se dá conta de que os pais têm uma relação própria, diferente, é provável que ele tenha vários sentimentos: interesses, animação e segurança com o fato de que a vida prossegue independentemente dele. Os bebês e as crianças pequenas costumam brincar alegres se há gente por perto conversando. Às vezes, porém, eles sentem inveja e ciúme e se ressentem do fato de que os pais não existem exclusivamente para eles. Em certo momento do desenvolvimento da criança, ela costuma interromper aos gritos a conversa dos pais por querer participar.

Do mesmo modo, a dificuldade de dormir e o desejo de ficar entre os pais na cama podem resultar da inveja da criança do relacionamento sexual dos pais, porque ela, embora não conheça o sexo da perspectiva dos adultos, percebe um aspecto excitante e importante da relação de que a excluem. Por isso a criança às vezes tenta atrapalhar o relacionamento do casal.

A inveja, apesar de evidente nessas primeiras relações, também se insinua em situações novas e reacende conflitos antigos. Ressaltei que a inveja é mais perceptível num relacionamento de dependência. Ela também é motivada por mudanças, que geram insegurança e a sensação de que alguém está em melhor posição. Principalmente as novas fases do desenvolvimento costumam desencadear inveja: o desmame, outro irmão, a entrada na escola e a saída de casa podem provocar ciúme e inveja daquilo que se deixou para trás e do fato de que outro, na realidade ou na fantasia, ocupa o lugar anterior. Temos de perceber uma vez mais que o mundo não gira à nossa volta, que na verdade o seio ou a mãe, a situação de que nos afastamos, pode perfeitamente ter vida própria sem nós e ser uma fonte independente de alimento e apoio – a outra pessoa. Existe ainda a inveja daqueles que se firmaram e são mais bem-sucedidos na nova fase.

Quanto mais satisfeito o indivíduo tiver sido na fase anterior, maior a possibilidade de ele se libertar e passar para a próxima fase sem grande ressentimento. Mas, se houve pouca satisfação, torna-se difícil se libertar das prerrogativas de uma fase e passar para a seguinte. A criança talvez se recuse a andar, pois isso implica não ser mais levada no colo, ou a aprender a falar, que significa claramente ter uma mente separada da mente da mãe. Se a inveja é excessiva, a experiência de desenvolvimento pode ser amarga e a mágoa prevalece. A choraminga e as queixas às vezes mascaram a inveja que a criança tem da mãe que não se dedica exclusivamente a ela e o ciúme dos outros que recebem a atenção da mãe. Em situações como essa, a inveja se confunde com o ciúme, mas a intensidade da amargura ou do ressentimento dá uma ideia de quanta inveja existe por trás das reclamações.

A inveja às vezes é disfarçada se o bebê, ou o lado infantil do adulto, sentir que domina a a fonte de alimento a ponto de não reconhecer a existência de outra. A criança ou o adulto que repetem uma grande descoberta como se fosse exclusiva podem ser comparados ao bebê que acha que o seio é só dele.

VIII- INVEJA NA ADOLESCÊNCIA

A adolescência é um período em que a inveja se intensifica, pois o adolescente precisa enfrentar a insegurança e a incerteza com o futuro e com a sua identidade ainda em desenvolvimento. O trabalho e as relações sexuais, até essa altura prerrogativas dos adultos, podem ser almejados, mas ainda assim difíceis de conquistar.

O adolescente talvez inveje aqueles que sabem o que fazem na vida ou têm meios e capacidade para tanto. Talvez inveje os que estão empregados ou tiram notas boas nas provas, ou os que têm um relacionamento sexual estável. Todavia, é mais claro que nunca que o que ele fará da própria vida cabe somente a ele, perspectiva que pode ser assustadora. Na pior das hipóteses, o adolescente se refugia no ceticismo quanto aos valores, ao trabalho e às relações dos adultos – o que talvez denuncie uma inveja das coisas que parecem difíceis de conseguir. O adolescente se recusa a estudar, a conseguir um emprego, a ajudar em casa, achando insuportável não ter imediatamente as pretensas realizações da vida adulta.

Nessa faixa etária, as pessoas são especialistas em causar inveja nos outros. As meninas e, cada vez mais, os meninos usam as roupas e a aparência para transmitir inveja aos amigos, certos de que estão “numa boa”. Estar “numa boa” é dar a impressão de não estar angustiado, de não ser afetado pela ansiedade e pela agitação dos amigos e, claro, deles mesmos. Assim, a inveja projetada é a inveja de um estado de espírito despreocupado, em que o adolescente não se sente na turbulência inevitável da idade. A inveja do adolescente quase sempre está acompanhada da insegurança e é um denominador comum a todos. Nem sempre é um traço de personalidade permanente e talvez diminua à medida que o adolescente se senta mais seguro de si. No entanto, se a inveja foi um problema sério na infância, ela é bem mais arraigada no adolescente.

Uma jovem que, quando pequena, invejava demais a mãe tentou controlar a inveja sendo muito competitiva e aplicada e transferindo-a para os irmãos mais novos. Na adolescência, ela não conseguiu manter essa conduta e desistiu de tudo, ausentando-se de casa e da escola e rejeitando todas as tentativas de ajudá-la. Tornou-se promíscua e perdeu as esperanças em si mesma e no futuro. Viu-se diante da inveja das realizações e da sexualidade dos adultos, que ela negara por tanto tempo, o que a fez se afastar do que ela gostaria de realizar. A jovem acabou fazendo terapia e conseguiu enfrentar a inveja que a impedia de viver a vida.

IX- INVEJA NA VIDA ADULTA

Na maturidade, assim como na infância e na adolescência, a inveja que foi descontrolada numa fase inicial reaparece nos momentos de tensão e precisa ser superada para que haja criatividade e otimismo. Os momentos de tensão são as épocas difíceis (doenças ou adversidades) e as de mudanças ou de desafio.


Um paciente que tentava conseguir emprego numa firma sonhou que tinha uma cicatriz no ombro que reabriu em um ponto, que estava então recoberto por uma cicatriz parecida. Ele disse que o sonho o lembrou de que ele costumava enfrentar situações novas( como mudar de escola). Como esse paciente tinha ficado muito irritado com o nascimento dos irmãos – o primeiro “grupo novo de pessoas” da sua vida -, a inveja e o ciúme da infância reapareciam em situações novas. Ele enfrentara o problema do nascimento dos irmãos mostrando-se ressentido e inacessível.

As situações novas realmente fazem aflorar cicatrizes e sentimentos antigos, que precisam ser superados de novo. No entanto, as experiências novas também proporcionam a possibilidade de mudança ou de aturar melhor os antigos sentimentos primitivos. O sujeito ressentido do caso citado acima usou a descoberta feita nas análise para se tornar mais comunicativo e dar mais de si no trabalho e nos relacionamentos e aproveitá-lo melhor.

Se a inveja predominou em situações anteriores, ela reaparecerá nos momentos de mudança. Quando envelhecem, as pessoas costumam ter alguma inveja da geração mais nova e do futuro que ela tem pela frente. A aflição provocada pela inveja e pela perda pode ser compensada no prazer com a vida dos outros e na gratidão para com a vida que os próprios idosos tiveram. Todavia, a inveja, se for muito intensa, pode levar à crítica aos “jovens de hoje” – uma inveja disfarçada de desaprovação.

Milton falou do “tempo, o ladrão sutil da juventude”, e a devastação provocada pelo tempo pode mesmo parecer um roubo por inveja. Quando chegam à velhice, os mais idosos se convencem de que as coisas estão sendo roubadas deles – o seu dinheiro ou os seus objetos queridos, por exemplo. Às vezes pode ser uma expressão concreta da sensação de que as suas faculdades, a sua riqueza interior, as coisas valiosas que eles têm por dentro, por assim dizer, estão sendo roubadas por alguém que inveja o seu tesouro psíquico e as suas aptidões. Na velhice, a personalidade tende a se fragmentar quando é grande a perda da memória ou de outras faculdades mentais, e então se pode sentir de verdade que a inveja vem de fora.

Em qualquer idade, é doloroso se conscientizar da própria inveja, tanto que sempre tentamos desmenti-la. Uma as melhores maneiras de tentar se livrar da inveja é a “ troca de papéis” citada por Abraham. Anos depois, essa troca foi chamada por Melaine Klein de identificação projetiva, que se tornou um dos conceitos fundamentais da psicanálise contemporânea, muito comentado e muito debatido. È uma maneira de nos livramos dos sentimentos indesejáveis e tentar dominar os sentimentos que queremos ter.

Quando procuramos nos livrar da inveja, nós a projetamos em outra pessoa, enfatizando sutilmente as falhas dela e apontando para a nossa pretensa superioridade.

O elementos da caricatura sempre abre o jogo e revela o caráter da inveja por trás dele, pois as qualidades admiráveis e invejadas passaram a ser menos admiráveis e ganharam um traço desagradável. Às vezes talvez exista um pingo de verdade num aspecto da caricatura, pois a inveja pode apontar com precisão as fraquezas e exagerá-las, em detrimento da pessoa ou da qualidade admirada.

Como esse processo é quase sempre inconsciente, o indivíduo sente um grande incômodo quando se dá conta do que tem feito e admite a inveja que ele tentou negar. No entanto, existem outras pessoas bem conscientes da própria inveja que parecem não ter remorsos dos seus ataques de inveja. Obviamente, é bem mais difícil lidar com pessoas assim, uma vez que elas são incapazes de sentir culpa ou compaixão, que podem levar à mudança, ou pelo menos a vontade de não prejudicar os outros com a sua inveja. Às vezes se vê que a capacidade de se arrepender e de se preocupar foi projetada em terceiros, como parentes ou autoridades. Em outros casos parece que a capacidade de se preocupar foi reprimida na origem. Inserem-se nesses exemplos os psicopatas cruéis ou os violentadores, que são incapazes de ter compaixão pelas vítimas. Eles manipulam os sentimentos de outras pessoas para acabar com a vida delas.

X- IAGO

Um vilão desse tipo notório na literatura é o Iago da pela Otelo, de Shakespeare. Iago é motivado pela inveja implacável que ele sente por Otelo, o Mouro, e pela nova mulher deste, Desdêmona. Eles se casaram em segredo, pois o pai de Desdêmona nunca teria permitido um casamento inter-racial, embora seja um casamento de amor e respeito mútuo. Iago tem outras mágoas: sua substituição por Cássio na promoção a lugar-tenente de Otelo e o ressentimento por não mais receber dinheiro de Rodrigo, que o pagava para ser intermediário entre ele e Desdêmona, agora obviamente comprometida. Iago ainda suspeita (talvez sem fundamento) que Otelo tece um caso com sua mulher, Emília.

Klein destacou que a paz de espírito é uma das qualidades mais invejadas. Outras são a bondade e a inocência – a inexistência de inveja. Iago não consegue suportar essas qualidades nem em Otelo nem em Desdêmona, e seus planos visam à destruição da bondade e da inocência dela.

Ao contrário de outros vilões de Shakespeare, Iago não mostra remorso em momento algum, embora Otelo demonstre um pesar condoído pelo desastre do seu amor.

Iago é perito em usar a inveja para manipular: sabe exatamente como seduzir o adversário e o faz sem remorso. Ele vai além do que sabe da sexualidade do casal.

XI-A TENTATIVA DE IGNORAR A INVEJA

A inveja costuma enfraquecer os sentimentos bons sem que o invejoso se dê conta. È esse caráter oculto que pode fazer a inveja tão difícil de controlar e tão perniciosa. Ela é como uma cobra do mato, o inimigo oculto que se infiltra sem ser visto. Temos muitas maneiras de ignorar a nossa inveja, que pode ser projetada – por exemplo, quando alguém ostenta o que possui ou os seus atributos a fim de provocar inveja.

Quando eu disse a uma paciente minha que teria de interromper a análise dela por um tempo ( o que é incomum), ela reagiu dizendo que também não poderia vir a uma sessão. Declarou então que estava furiosa porque uns amigos tinham marcado primeiro a data de uma festinha, o que tinha diminuído a sua vontade de dar a festa. Pareceu que a paciente tinhas interpretado a minha ausência futura como se eu tivesse “marcado primeiro” as minhas datas. Como se eu fosse oferecer uma festa que eclipsaria a dela. O acerto de datas pareceu provocar nela inveja e competição e um desejo de transmitir a inveja a mim.

Ela tinha tido vários irmãos mais novos e se lembrava de que, assim que começava a se conformar com o nascimento de um, a mãe anunciava uma nova gravidez, e a raiva e a inveja dela reacendiam.

Se, no entanto, a pessoa projeta a inveja tão bem a ponto de temer a inveja dos outros, ela pode, em vez de ostentar o que tem, cair no extremo oposto e se calar. Ela talvez se vista mal ou se deprecie de outras maneiras, para que ninguém inveje essa pobre coitada. As crianças dizem frequentemente que não estudam para as provas, que não são nada boas em certas coisas, para que ninguém as critique por estudarem demais ou pelas suas conquistas.

O medo do sucesso é idêntico ao medo do fracasso, pois o sucesso pode gerar o medo da inveja, real ou imaginada. Os estudantes que procuram ajuda para as provas finais temem tanto o sucesso quanto o fracasso. O sucesso quase sempre atrai a inveja de outras pessoas, como no caso do sujeito que obtém um primeiro lugar, consegue um emprego difícil e se destaca. Mas, se o medo da inveja for paralisante, é bem provável que os sentimentos projetados pelo indivíduo contribuam para isso.

Outra manobra evasiva consiste em projetar nos outros a parte responsável e interessada da personalidade, de modo que o indivíduo não sinta arrependimento da sua inveja. Isso ocorre com delinquentes juvenis, que podem investir por inveja contra bens materiais e pessoas. Os adultos assumem por algum tempo a parte responsável do adolescente, na esperança de encontrar uma maneira de devolvê-la a ele e fazê-lo voltar a ter senso de responsabilidade e sentimento de culpa, que o levaria a refrear os seus sentimentos e dar valor à vida dos outros.

Falei da projeção da inveja, por um lado, e da projeção da culpa e da responsabilidade, por outro. A ocorrência simultânea desses dois sentimentos – inveja e culpa – é que pode ser muito dolorosa. Às vezes, tão dolorosa ou tão temida que a pessoa se torna insensível para evitar a dor ou o desespero decorrentes do dano provocado por sua inveja. Pode-se chegar perto do remorso, sentir a dor da culpa e depois recuar, achando que o dano é grande demais para ser enfrentado. Então o indivíduo divide os seus sentimentos, livrando-se da inveja ou da preocupação, a fim de não ter o sentimento incômodo causado pela consciência das duas.

Claro que quase sempre não temos consciência de que renegamos os sentimentos dessa maneira. Na psicanálise, pode surgir uma oportunidade para reaver aspectos nossos que negamos involuntariamente. O restabelecimento dos aspectos indesejáveis do eu, além de doloroso, pode trazer uma boa dose de verdade, que talvez pareça mais significativa que a dor do recolhimento. Klein discorreu sobre a sensação de choque que se tem quando duas partes separadas do eu se juntam. Ela supôs que esse choque pudesse ser “O resultado de um passo importante para a cura da cisão das partes do eu”.


XII- INVEJA E A RELAÇÃO PSICANALÍTICA

A inveja sempre se manifesta na análise na forma de um retrocesso exatamente quando já se fez algum progresso. Isso é tão comum que ganhou o nome de “reação terapêutica negativa”.

Em muitos dos exemplos apresentados, é evidente a presença da inveja. Frequentemente, porém, ela é sentida de um modo mais insidioso, contagiando o ambiente gradativamente. O analista pode notar que a análise não está levando a lugar nenhum, que o seu trabalho não é satisfatório, e acabar concluindo que predominou nas sessões uma sensação latente de futilidade. Com o tempo, torna-se claro que o paciente não quer que a análise tenha sucesso nem dar ao analista o prazer de vê-lo mudar. Esse veneno lento é o lado sutil da inveja, e a dúvida que ela cria é uma das suas marcas registradas.

Isso não quer dizer que a dúvida seja sempre causada pela infiltração da inveja! O analista pode errar e precisa questionar sempre onde se encontra o problema. No entanto, a dúvida provocada pela inveja faz o analista achar que não pode confiar em si nem no seu discernimento. Seu mundo interior é atacado dissimuladamente, pois a inveja visa destruir as próprias qualidades que a pessoa invejosa deveria, ao contrário, valorizar e usufruir. O discernimento do analista é posto em xeque. Só conscientizado desse processo o analista consegue levar a análise adiante e retomar o contato com o lado construtivo do paciente, também enfraquecido.

A dúvida crônica no discernimento individual pode resultar de um ataque de inveja. Nos casos de psicose borderline, é possível que exista uma parte invejosa que investe contra o discernimento do paciente e, no fim, contra o seu senso de realidade. O analista também sente esse ataque ao discernimento.


XIII-O QUE PROVOCA INVEJA ?

Ao lidar com a inveja na análise ou em outra relação, há um vaivém inevitável entre as forças da criatividade e da vida e as da inveja e da destrutividade. Nem sempre é fácil saber onde essas forças se localizam, pois sempre há duas pessoas envolvidas. Existe uma probabilidade bem maior de a inveja aparecer em certos tipos de relacionamento, o que levanta a questão de como as coisas são dadas e como são recebidas. Se aquele que dá gosta de fazê-lo e não está tentando diminuir o que recebe, este pode ser capaz de aceitar com gratidão o que se oferece e ter a vontade de fazer o mesmo, dando algo em troca. Se, por outro lado, aquele que dá não demonstra prazer nisso, ou parece dar só para se sentir bem e não por estar realmente interessado no recebedor, este se sente magoado e talvez invejoso: não lhe dão espontaneamente e, assim, ele não pode desfrutar o que lhe oferecem. È importante que o indivíduo que dá sinta felicidade com o prazer daquele que recebe e se interesse pelo que este faz com o presente. Se o que dá não suporta ganhar nada em troca, torna-se mais difícil receber o presente e mais provável haver uma reação de inveja.

Como vimos, a inveja pode ser estimulada inconscientemente, e portanto é sempre importante estar atento ao que acontece nos dois lados da relação em que ala surge. Alguns dos exemplos que dei podem ser vistos de ângulos diferentes: muito provavelmente, o pai que contou ao filho certos detalhes da procriação estimulou de algum modo a inveja do filho, ou quem sabe a analista tenha avisado com uma ponta de provocação que se ausentaria em determinada data. Talvez a inveja de Iago tenha sido motivada pelo tratamento indiferente que Otelo lhe deu e pelo relacionamento inacreditável deste com Desdêmona.

Se aquele que dá consegue transmitir que não se considera perfeito, é mais provável que o recebedor note o espírito humano existente, o que torna mais fácil aceitar o que se deu e enfrentar qualquer inveja que ele sinta. Isso nos leva à questão da inveja na sociedade.

XIV – INVEJA E SOCIEDADE

Ao pensar em sociedade, é essencial, em primeiro lugar, distinguir a inveja motivada por privação ou desigualdade da inveja descrita na maior parte deste livro, relativa à intolerância à diferença.

Tem-se usado o termo “políticas de inveja” como justificativa das enormes desigualdades de riqueza e privilégios, como se os menos privilegiados devessem se esforçar para não ter inveja. Onde existem desigualdades gritantes há inveja, que, contudo, pode ser causada mais por privação do que por dificuldades individuais para tolerar a felicidade dos outros. Por exemplo, o vandalismo é de certa maneira uma manifestação de inveja provocada por desigualdades sociais flagrantes, e não simplesmente um problema da destrutividade de vândalos individualizados. Há ainda a questão de por que algumas pessoas recorrem ao vandalismo, outras procuram emprego e outras tentam mudar a sociedade.

O problema da inveja na sociedade diz respeito a uma mistura de fatores pessoais e sociais. Esses fatores são concreto e psicológicos: o vândalo adolescente talvez não tenha emprego nem perspectiva de trabalho ou de escolaridade maior; ou ele pode ser um garoto desajustado que tem boas oportunidades de estudo, mas acha que recebe uma educação padronizada que não lhe dá espaço como indivíduo, tanto pelo que ele tenha para oferecer como por suas limitações. Existe também aí a questão de ele já ser invejoso e dos fatores que contribuíram para isso na sua infância e no seu temperamento. Portanto, os ataques de inveja a bens materiais podem ser tão complexos quanto a própria sociedade.

Entretanto, pode-se constatar na sociedade certos ataques por inveja que não parecem ter relação com a injustiça social. Veja os hackers da internet, por exemplo: são inteligentes e têm o conhecimento e os computadores necessários para sabotar a comunicação entre outras pessoas. O objetivo deles é disseminar a destruição arbitrariamente, só por prazer. Faz lembrar uma versão muito mais destrutiva da criança que insiste em interromper a conversa dos pais. O hacker quer danificar o equipamento de modo que nenhuma comunicação seja possível, e o prazer dele se encontra no saque invejoso e na satisfação de vencer o sistema.

As manifestações sociais de inveja não se restringem de forma alguma a atividades criminosas. Existem várias maneiras de expressar inveja na sociedade. Por meio da mídia e de outras instituições como times de futebol, as empresas de música e de cinema, nós elevamos as celebridades a graus invejáveis de riqueza e fascínio depois tentamos destruí-las com fofocas e escândalos e tirando-lhe a privacidade – uma intrusão invejosa em vidas que ajudamos a construir.

Permitimos que os publicitários provoquem a ganância e o desejo de bens materiais, de artigos da moda a carros chiques. Pode-se argumentar que a publicidade incentiva a imitação, mas quase sempre parece se tratar de uma imitação fundada na insatisfação com nós mesmos e com a nossa imagem produzida pelo comércio, um ataque invejoso à nossa auto-estima e a outros valores. Isso nos leva à necessidade de comprar determinada coisa para nos sentimos valorizados, em vez de dar valor ao que já temos ou no atermos ao interesse e ao envolvimento naquilo que está além de nós e das poses materiais.

A desigualdade de riqueza e de oportunidades na sociedade e entre as sociedades costuma provocar inveja nas pessoas e nas comunidades desprovidas, e culpa e negação nas abastadas. A onipresença da televisão, com programas e anúncios em que a propaganda impera, também aumenta a inveja nas regiões em que a maioria dos produtos comerciais é inalcançável por causa da pobreza.

Outra manifestação social da inveja que eu gostaria de enfocar é a existente na discriminação de grupos humanos diferentes do nosso. As diversas divisões da sociedade podem levar à suspeita e à desconfiança deles. Isso nos faz voltar à inveja destrutiva que se deve não só à privação ou à competição por recursos, mas ao fato de ser difícil de aceitar o que as outras pessoas têm para oferecer. È mais fácil desmerecer um grupo diferente do nosso e procurar falhas neles do que sermos receptivos ao novo. O preconceito consiste principalmente na projeção de sentimentos indesejáveis em grupos ou indivíduos. Podemos tentar rejeitar os nossos traços negativos em vez de sermos capazes de suportar o fato de que outro grupo tem características que não temos e de aceitar em usufruir a riqueza e a diversidade da diferença.

XV- CONCLUINDO

Nessa altura, parece apropriado voltar a Chaucer: “Decerto, então, o amor é o remédio que purga o coração do homem do veneno da inveja”.

Chaucer refere-se à dor do reconhecimento da inveja e da tentativa de remediar e afirma que é a capacidade de amar que permite vencer a inveja. O reconhecimento da inveja e a preocupação com os seus efeitos na vida coletiva e individual é uma manifestação de amor, no sentido de proteger aqueles que seriam prejudicados pela inveja. Ou, se o mal já aconteceu, o reconhecimento pode levar à reparação e à reconciliação. Desde que se consiga assumir a responsabilidade pela própria inveja, pode-se iniciar um ciclo benéfico, em que a amargura e a culpa dêem lugar ao prazer, à gratidão e à conscientização de que a outra pessoa ou coletividade têm oferecido algo que era difícil aceitar. A gratidão, o alívio proporcionado pela preocupação com outra pessoa e o prazer com o que essa pessoa tem para dar servem para contrabalancear os efeitos nocivos da inveja. Seria correto dizer que o ruim da inveja é o fato de que ela investe contra a bondade; o bom de saber enfrentar a inveja é que a bondade pode ser apreciada e desfrutada.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A AMAP DÁ AS BOAS VINDAS

CURSO DE FORMACAO DE PSICANALISTA CLINICO - INSCRICOES ABERTAS
ACESSO A PSICANALISE EM CLINICA SOCIAL - INSCRICOES ABERTAS
CURSOS E PALESTRAS 
Informações: giseleparreira@amapmg.com.br ou parreiragisele@yahoo.com.br



segunda-feira, 10 de maio de 2010

ESPACO TERAPEUTICO E EVENTO SOCRATES AO CAFE LIV MINEIRIANA POESIA BIOSONORA

Se você deseja receber email mensal sobre o SOCRATES AO CAFE faça contato com www.intitutobiaggi.com.br ou mande um email: bbiaggi@ig.com.br e saiba da programação.

domingo, 2 de maio de 2010

DOE PALAVRAS AOS PACIENTES DO HOSPITAL MARIO PENNA ...

O Hospital Mário Penna em Belo Horizonte que cuida de doentes de câncer, lançou um projeto sensacional que se chama "DOE PALAVRAS".


Fácil, rápido e todos podem doar um pouquinho.

Você acessa o site Doe palavras (http://www.doepalavras.com.br/), escreve uma mensagem de otimismo, curta (como twitter) e sua mensagem aparece no telão para os pacientes que estão fazendo o tratamento.



É carinho puro, de coração prá coração. Quer tentar?